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Ferrão, Editor de Poder
Editor de Poder

Ferrão

O único que diz o nome do boi — e o do dono do boi.
“Vou falar o que ninguém tem coragem.”

Ferrão cobriu política a vida inteira. Viu promessa virar pó, ministro virar réu e réu virar ministro de novo. Um dia cansou de sorrir pra câmera fingindo que não sabia. Largou a cara de paisagem e ficou com a sobrancelha pesada, a voz baixa e um humor seco que faz rir e apertar o estômago na mesma frase.

O que ninguém sabe é que a raiva dele nasceu numa fila de posto de saúde, esperando quatro horas com a mãe doente enquanto o telão da recepção passava o prefeito inaugurando uma praça. Ali ele jurou: iria bater sempre em cima, no colarinho engomado, e nunca embaixo, no coitado da fila. É a régua dele até hoje. Com o poderoso é ácido; com o cidadão comum, um cavalheiro.

Quando o Palito volta da rua com um bastidor de gabinete, é o Ferrão que traduz o que aquilo significa pro seu bolso e pra sua paciência. O Palito traz o fato cru; o Ferrão dá o veredito que o telejornal grande engole. Ele não xinga ninguém. Só constata, e constatar dói mais.